domingo, 21 de fevereiro de 2010

2 anos a Caminhar do Sul




Foi há dois anos que "Caminhar do Sul" começou a deixar as suas pegadas na blogosfera.


24 meses percorridos,
54622 peregrinos a caminhar,
642 pegadas deixadas,
149 peregrinos com inscrição diária,
208 momentos de oração,
muitos caminhos percorridos... e outros tantos a percorrer...


A todos os que caminharam connosco o nosso BEM HAJA!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

BB. Francisco e Jacinta Marto




Francisco Marto nasceu em Aljustrel, Fátima, no dia 11 de Junho de 1908, e sua irmã Jacinta Marto nasceu na mesma localidade, no dia 11 de Março de 1910. Na sua humilde família aprenderam a conhecer e louvar a Deus e a Virgem Maria.

Em 1916 viram três vezes um Anjo e em 1917 seis vezes a Santíssima Virgem que os exortavam a rezar e a fazer penitência pela remissão dos pecados, para obter a conversão dos pecadores e a paz para o mundo. Ambos quiseram imediatamente responder com todas as suas forças a estas exortações.

Inflamados cada vez mais no amor a Deus e às almas, tinham uma só aspiração: rezar e sofrer de acordo com os pedidos do Anjo e da Virgem Maria. Francisco faleceu no dia 4 de Abril de 1919 e Jacinta no dia 20 de Fevereiro de 1920.
O papa João Paulo II deslocou-se a Fátima no dia 13 de Maio de 2000 para beatificar as duas primeiras crianças não mártires.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Tempo de Quaresma

Interrompe-se o Tempo Comum.
Toma-se o II volume da Liturgia das Horas





A quaresma é o tempo litúrgico de conversão, que a Igreja marca para nos preparar para a grande festa da Páscoa. É tempo para nos arrepender de nossos pecados e de mudar algo de nós para sermos melhores e poder viver mais próximos de Cristo.

A Quaresma dura 40 dias; começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-Feira Santa, com a Missa vespertina. Ao longo deste tempo, sobretudo na liturgia do domingo, fazemos um esforço para recuperar o ritmo e estilo de verdadeiros fiéis que devemos viver como filhos de Deus.

A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa luto e penitência. É um tempo de reflexão, de penitência, de conversão espiritual; tempo e preparação para o mistério pascal.

Na Quaresma, somos convidados a mudar de vida. A Igreja convida-nos a viver a Quaresma como um caminho a Jesus Cristo, escutando a Palavra de Deus, orando, compartilhando com o próximo e praticando boas obras. Convida-nos a viver uma série de atitudes cristãs que nos ajudam a parecer mais com Jesus Cristo, já que por acção do pecado, nos afastamos mais de Deus.

Por isso, a Quaresma é o tempo do perdão e da reconciliação fraterna. Cada dia, durante a vida, devemos retirar de nossos corações o ódio, o rancor, a inveja, os zelos que se opõem a nosso amor a Deus e aos irmãos. Na Quaresma, aprendemos a conhecer e apreciar a Cruz de Jesus. Com isto aprendemos também a tomar nossa cruz com alegria para alcançar a glória da ressurreição.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

UM GIGANTE DE SANTIDADE



São Francisco foi «um gigante de Santidade»



O Papa diz que o fundador da Ordem dos Frades Menores continua a fascinar pessoas de todos os credos religiosos.
Bento XVI evocou na audiência do dia 27 de Janeiro a vida de São Francisco de Assis, “um autêntico ‘gigante da santidade’, que continua a fascinar inúmeras pessoas de todas as idades e credos religiosos”.

Na sua alocução, o Papa recordou o percurso vocacional do fundador da Ordem dos Frades Menores: “Depois de viver uma juventude leviana, Francisco passou por um lento processo de conversão espiritual que culminou na sua decisão de viver na pobreza e de dedicar-se à pregação, sempre em comunhão com a autoridade eclesiástica”.

O modo como São Francisco anunciou a mensagem cristã foi igualmente assinalado por Bento XVI: “O seu ardor missionário levou-o até às terras sob o domínio do Islão, onde conseguiu, armado somente da sua fé e mansidão, estabelecer um diálogo frutuoso com os muçulmanos, o qual ainda hoje é modelo para nós”.

O Papa sublinhou que a vida do santo italiano se alicerçou na oração e na meditação: “Francisco não procurou outra coisa senão ser como Jesus: contemplando-O no Evangelho, amando-O intensamente na Eucaristia e imitando Suas virtudes, até ao ponto de receber o dom sobrenatural dos estigmas, demonstrando assim, visivelmente, a sua conformação total a Cristo humilde, pobre e sofredor”.

São Francisco nasceu entre os anos 1181-1182 em Assis, Itália, e morreu a 3 de Outubro de 1226. Como habitualmente, o Papa deixou uma saudação aos peregrinos de língua portuguesa: “O testemunho da vida de São Francisco de Assis ensina que o segredo da verdadeira felicidade é tornar-se santo. Que a Virgem Maria conceda este dom a vós e aos vossos familiares que de coração abençoo”.

In agência ecclesia; Papa Bento XVI

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Para rezar

Senhor Jesus Pai Santo
Mais uma vez estamos diante de ti
para te adorar, louvar, bendizer e glorificar.
Ó admirável Deus três vezes santo,
outra coisa não queremos nesta noite
senão somente adorar-te e colocar
todo o nosso coração no teu sagrado coração
que é infinitamente amor – bendito sejas,
Jesus, pela tua santidade!

Bendito sejas, Jesus amado,
porque nos queres santos como tu,
e nos apresentaste a santidade,
a perfeição do pai como modelo das nossas vidas cristãs.

Bendito sejas,
porque nos deste o espírito
que vai realizando em nós
essa vida santa segundo o evangelho!
Bendito sejas, meu senhor e meu Deus,
Jesus ressuscitado
que te dás a nós na hóstia consagrada,
para te podermos adorar e expor-te as nossas vidas.

Senhor Jesus ajuda-nos a sermos santos.
A santidade tem uma medida,
essa medida é o amor.
Seremos tanto mais santos, quanto mais amarmos.
Tudo só conta na medida do amor.
Que nesta noite o nosso coração saiba adorar-te,
silenciar e falar tudo contigo.
Na verdade estamos diante de ti
que és o Nosso Senhor, o nosso Rei,
o nosso Deus e o nosso Tudo.
Fica connosco Jesus nesta noite e sempre.


Oração do Ir. José Domingos na Adoração de Janeiro 2010

Adoração ao Santíssimo Sacramento


"Felizes ou Infelizes?"




Igreja de Selmes, Selmes - Fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

VI Domingo do Tempo Comum - Ano C

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus desceu do monte,
na companhia dos Apóstolos,
e deteve-Se num sítio plano,
com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia,
de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia.
Erguendo então os olhos para os discípulos, disse:
Bem-aventurados vós,
os pobres, porque é vosso o reino de Deus.
Bem-aventurados vós,
que agora tendes fome, porque sereis saciados.
Bem-aventurados vós,
que agora chorais, porque haveis de rir.
Bem-aventurados sereis,
quando os homens vos odiarem,
quando vos rejeitarem e insultarem
e proscreverem o vosso nome como infame,
por causa do Filho do homem.
Alegrai-vos e exultai nesse dia,
porque é grande no Céu a vossa recompensa.
Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas.
Mas ai de vós,
os ricos, porque já recebestes a vossa consolação.
Ai de vós,
que agora estais saciados, porque haveis de ter fome.
Ai de vós,
que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.
Ai de vós,
quando todos os homens vos elogiarem.
Era assim que os seus antepassados tratavam os falsos profetas.

Palavra da salvação.

Lc (6, 17.20-26)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Mensagem Quaresmal de D. José Alves, Arcebispo de Évora: Deus ama quem dá com alegria


A dezassete de Fevereiro inicia-se, mais uma vez, a longa caminhada quaresmal de preparação para a solenidade da Páscoa – centro, fonte e auge da vida cristã.

A importância única dessa solenidade justifica que a preparação que lhe é dedicada pela Igreja tenha também um carácter mais alongado e abrangente.

Na multissecular tradição cristã, a preparação da Páscoa está intimamente associada à preparação próxima dos adultos para o Baptismo, celebrado na noite da Vigília Pascal, e constitui um tempo alongado de purificação espiritual, com recurso aos meios tradicionais da ascese cristã, que podemos resumir a três: oração, mortificação e partilha. Nenhum destes meios se justifica por si mesmo. Eles adquirem significado e valor espiritual na medida em que induzem e possibilitam um processo de conversão interior, em ordem a aproximar cada fiel do modelo de todos - Jesus Cristo.

Alguns, mais imbuídos da mentalidade hedonista, continuada e persistentemente apregoada de muitas formas na nossa sociedade, talvez não encontrem uma justificação plausível para este apelo à conversão que a Igreja todos os anos repete no início da caminhada quaresmal.

Mas aqueles e aquelas que acolheram no coração a mensagem evangélica e a tomam como norma de vida, estão cientes da necessidade da conversão e reconhecem na partilha dos dons recebidos da mão de Deus um meio eficaz para a alcançar. Na verdade, a partilha dos bens é uma forma privilegiada de exprimir o amor ao próximo, que é a essência do cristianismo.

A partilha dos bens com os outros é, antes de mais, uma imitação dos gestos gratuitos de Deus para com a humanidade por Ele criada e enriquecida com múltiplos dons naturais e sobrenaturais. As raízes da partilha alimentam-se da religião bíblica que exige a todos o amor dos irmãos e determina formas concretas de o praticar.

Como acontece, por exemplo, ao impor que se deixe uma parte das colheitas para os pobres (Dt 24,20), que se pague o dízimo trienal em favor dos que não têm terras (Dt 14,28) e que aos apelos dos pobres se responda com generosidade (Dt 15,20) e com delicadeza (Sir 18,15).

Mas S. Paulo, ao escrever aos cristãos de Corinto, vai mais longe. Segundo ele, a esmola não deve ser praticada como simples gesto de filantropia. Pois toda a esmola feita com sentido cristão está carregada de significado religioso e simbolismo eucarístico. Ela é sinal e símbolo da comunhão que deve existir entre os membros da assembleia eucarística. Pode mesmo significar a unidade que existe entre diferentes comunidades cristãs. E foi esse o significado que ele deu à colecta levada a cabo nas comunidades cristãs estabelecidas no ambiente pagão, a favor da comunidade pobre de Jerusalém. A tal colecta S. Paulo chegou mesmo a atribuir um carácter sagrado designando-a por ministério e liturgia (2Cor 8,4; 9,12).

Com esse gesto de caridade, S. Paulo pretendia eliminar as diferenças e fortalecer os laços de comunhão entre as igrejas da diáspora e a igreja mãe de Jerusalém. É certo que a comunhão é um fruto amadurecido pela graça do Espírito. No entanto, não há fruto sem sementeira. E esta tem que ser feita por cada um de nós. Tal como acontece na agricultura, é preciso semear abundantemente (2Cor 9,6) para que a colheita também venha a ser abundante. Ora foi esse o belo exemplo dos cristãos da Macedónia. O Apóstolo Paulo elogia-os, porque no meio das muitas tribulações com que foram provados, a sua superabundante alegria e extrema pobreza transbordaram em tesouros de generosidade (2Cor 8,2). E foram eles que, com toda a espontaneidade e muita insistência, pediram a graça de participar no serviço em favor dos santos.

A exemplo de S. Paulo, este ano também eu peço aos cristãos de todas as comunidades diocesanas, mesmo aos mais pobres, que espontaneamente e segundo as suas possibilidades, cada um ponha de parte o que tiver conseguido poupar (1Cor 16,2) e o entregue na celebração eucarística como gesto de comunhão com as três paróquias novas e pobres que estão a construir a sua igreja paroquial, sem as habituais comparticipações das entidades oficiais. Trata-se das paróquias de Foros do Arrão, Foros de Vale de Figueira e Silveiras.

Quanto à promoção da Renúncia Quaresmal, procederemos do mesmo modo que nos anos anteriores. E peço à Caritas Diocesana que organize a distribuição desta mensagem e dos respectivos envelopes por todas as paróquias. Quanto à recolha do produto da Renúncia, este ano seguiremos um método diferente dos outros anos. Cada pároco, durante o mês de Abril, entregará o produto da Renúncia Quaresmal das suas paróquias ao Vigário da Vara. Este, por sua vez, fará a entrega da soma recolhida na Vigararia à Cúria Diocesana, que dividirá o total em três partes iguais para distribuir pelas paróquias contempladas.

Pela minha parte, seguindo o exemplo de S. Paulo, que foi pessoalmente a Jerusalém, acompanhado de alguns dos seus colaboradores, para entregar o produto da colecta, também eu, no dia 30 de Maio, irei pessoalmente, acompanhado por alguns representantes das três Zonas Pastorais da Arquidiocese, entregar a cada uma das três paróquias o resultado da Renúncia Quaresmal deste ano.

Estou certo que as três paróquias contempladas com a nossa generosidade sentirão grande alegria por poderem dar algum avanço às obras da igreja paroquial que há tanto tempo desejam ver concluídas. Certamente, a nossa alegria ao dar será ainda maior do que a delas ao receber. Sejamos generosos e alegres na dádiva, para que o amor de Deus cresça em nós, pois Deus ama quem dá com alegria.

Évora, 25 de Janeiro de 2010 e Festa da Conversão de S. Paulo

+José, Arcebispo de Évora

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Mensagem de Bento XVI para a Quaresma 2010



A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21–22)

Queridos irmãos e irmãs,

Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21–22).

Justiça: “dare cuique suum”

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romano do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais íntimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado à sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena à morte centenas de milhões de seres humanos por falta de alimentos, de água e de medicamentos -, mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nota Santo Agostinho: se “a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu… não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativa ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: “Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, colhendo o fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram à lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição; à lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De facto sedaqah significa, de um lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva (cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei, pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (cfr Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro (cfr Ex 22,20), o escravo (cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto-suficiência, daquele estado profundo de fecho, que é a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente para a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

Cristo, justiça de Deus

O anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vítima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O facto de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção: que justiça existe lá, onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira, cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidência que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo, óbvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é a do amor (cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.

Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 30 de Outubro de 2009

BENEDICTUS PP. XVI

Caminhar do Sul no Mundo